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João Marques Ramalheira
In "Canção do Mar"
Falar de Ílhavo, é falar do mar - do seu sussurro, da sua canção cujo eco se repercute pelos séculos além. Ílhavo e o mar andam tão unidos como o perfume às rosas e a inquietação à alma humana!

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Leonel Garrido

As nossas 3 Bandas Filarmónicas


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AS FILARMÓNICAS DO NOSSO CONCELHO

Já foram três as bandas filarmónicas de Ílhavo e de S. Salvador, mas hoje temos apenas uma nesta freguesia e outra na freguesia da Gafanha da Nazaré. Vamos rever as principais notas do seu historial!



BANDA DA VISTA ALEGRE (1826)

José Ferreira Pinto Basto organizou em 1826, na Vista Alegre, um colégio com internato destinado a criar os futuros artistas das duas fábricas de porcelana e de vidro por ele fundadas. Neste colégio, além de se ensinar aos alunos as diversas valências da fábrica, ministrava-se o ensino da música. Foram 13 os primeiros alunos admitidos, tendo como director José Vicente Soares, natural de Penafiel. Este colégio durou até 1842 chegando a albergar 40 alunos. Como dependência do colégio organizou-se em 1826 uma filarmónica privativa da fábrica e composta exclusivamente por operários da fábrica.

 

José Ferreira Pinto Basto

Rezam as crónicas que a banda da Vista Alegre foi a Aveiro abrilhantar a recepção à Rainha D. Maria II, quando em Maio de 1852, acompanhada pelo Rei D. Fernando visitou esta cidade. Também no funeral do grande tribuno José Estêvão a banda da fábrica esteve presente bem como no casamento do rei D. Carlos, em Lisboa, a 28 de Maio de 1886. Em Junho de 1904 dá um concerto no Palácio de Cristal, no Porto, sob a regência de Martins Rosa e executando Guarany, Sansão e Dalila, La Bohéme, Romeo e Julieta, La Revoltosa, Serenade Hangroise (com solo de oboé), Marcha de Cadiz e a marcha Vista Alegre escrita expressamente para a banda por Pinto Figueiredo.

A Banda da Vista Alegre que esteve no casamento do Rei D. Carlos

Em 29 de Junho de 1926 celebrou o seu centenário com um concerto no largo da Fábrica e em que estiveram presentes cerca de 300 executantes das bandas de Infantaria nº24, José Estêvão, Amizade, Música Nova, Música Velha, Vaguense e da Vista Alegre. Neste concerto foi executado um Hino dedicado ao fundador da Vista Alegre e escrito em 1826. Regeu o Tenente Manuel Lourenço da Cunha.

No 150º Aniversário participaram as seguintes Bandas: Música Nova, Música Velha, Loureiro, Amizade, Visconde de Salreu e Vista Alegre.

Alguns dos maestros que passaram pela banda:

  • José Vicente Soares (1826 a 1828)

  • Prudêncio Apolinário (1830 a 1834)

  • Filipe Marcelino Chave (1834 a 1838)

  • António Dias (1838 a 1845)

  • João António Ferreira (1847 a 1851)

  • António Dias (1852 a 1866)

  • Joaquim Martins Rosa (1867 a 1907)

  • Berardo Pinto Camelo (1907 a 1934)

  • Duarte Gravato (1933 a 1957)

  • Cap. Domingos Martins Coelho (1958)

  • António Ribeiro de Castro (1958 a 1960)

  • Joaquim José Ramos Lopes (1960 a 1962)

  • José Vidal (1962 a 1966)

  • César Figueiredo (1967 a 1972)

  • Duarte Gravato (1972)

A reputada Banda da Fábrica, tal como era entre nós, carinhosamente, conhecida, marcou uma época de ouro das Filarmónicas Ilhavenses. Praticamente manteve sempre em actividade a banda e a orquestra, abrilhantando esta última várias cerimónias religiosas e peças de teatro musicado. Constituída por músicos de primeira água, passeou por Portugal toda a sua classe em concertos que ficaram memoráveis e sempre dirigida por maestros de inquestionável qualidade e competência. Só assim era possível apresentar um reportório de alto gabarito, em que pontificavam peças de autores de nomeada (Donizetti, Rossini, Puccini, etc.).

Até que em 1982 se dá o desaparecimento desta Filarmónica, não se confirmando os rumores que davam como certa a sua continuidade e tendo como maestro José Rafeiro um grande entusiasta das bandas e responsável por um enorme alfobre de jovens músicos que hoje se encontram espalhados por várias bandas.

A Banda da Vista Alegre deixou muitas saudades a todos os Ilhavenses amantes das Filarmónicas!

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FILARMÓNICA GAFANHENSE-Música Velha (1836)

 

Música Velha no arraial da festa da  N.S. Saúde numa foto de 1938 Foto do autor

Pelos ilhavenses Dr. António José da Rocha, magistrado e José Ferreira da Cunha e Sousa, mais tarde Governador Civil de Aveiro,  foi fundada no princípio de 1836 a primeira banda popular de Ílhavo. Estes dois amadores dramáticos tinham organizado uma companhia de curiosos que devia estrear-se num teatro construído por eles numa dependência do passal da freguesia, junto da igreja matriz de Ílhavo. Para o espectáculo de inauguração tinha sido convidada a orquestra da banda da fábrica da Vista Alegre, mas à última da hora a orquestra faltou, pois o seu director que era de politica contrária à dos organizadores, não o permitiu. Assim, aqueles ilhavenses levaram-se em brios e fundaram uma Sociedade Filarmónica. Foi seu primeiro maestro José Vicente Soares, ex-regente de bandas militares e que fora também o primeiro regente da banda da Vista Alegre. Depois deste houve vários regentes, sendo o ilhavense Francisco dos Santos Barreto o que mais tempo por lá ficou. Por morte deste, a Sociedade decaiu muito, quase se extinguindo, até que, cerca de 1885, um grupo de ilhavenses supervisionado por João da Conceição Barreto, mais tarde funcionário do Ministério do Interior, reorganizou-a baptizando-a com o nome de Sociedade Filarmónica Ilhavense. Adoptando o nome de Música Velha, a banda, nesta altura, entrou numa fase de grande brilho, competindo com as mais afamadas bandas do distrito.

Conselheiro José Ferreira da Cunha e Sousa


João da Conceição Barreto

João da Conceição Barreto

Nesta fase regeram a banda o Padre João Rodrigues Franco, exímio violinista de Vagos, um espanhol emigrado político, residente em Aveiro, de apelido Serrano dando à banda uma exemplar organização artística. Seguiu-se Manuel Procópio de Carvalho que num ensaio foi desrespeitado, em vésperas das festas em honra ao Coração de Jesus. Não foi possível demovê-lo a reassumir o seu cargo e então um grupo de amigos da Sociedade pedem a Diniz Gomes para reger a banda naquela festa. Este aceitou o desafio e tanto a banda como a orquestra fazem os dois concertos da festividade duma forma impecável. É então reiterado o convite para a continuação deste Ilhavense à frente da banda o que foi aceite. Diniz Gomes conseguiu elevá-la a um notável grau de perfeição, melhorando todo o seu instrumental e proporcionando-lhe várias exibições, mercê da grande influência política que exercia no concelho. São históricos os arraiais da festa do Senhor Jesus em que os desafios com as mais afamadas bandas do distrito, se prolongavam até de madrugada, "terminando frequentemente na farmácia mais próxima entre compressas de arnica e tiras de adesivo, tal era o número de cabeças partidas". Foi também neste tempo que a sua orquestra fez maiores progressos sob a regência do grande musicógrafo ilhavense João Carolla, actuando nas cerimónias religiosas às quais vinham pregar os oradores mais famosos do país e cantar os melhores tenores.

Diniz Gomes

Diniz Gomes Foto do autor

Conta-se a seguinte história passada no tempo em que Diniz Gomes dirigia a banda. Por estas alturas a bateria da banda (bombo, caixa e pratos) era constituída por elementos que não sabiam música e tocavam de ouvido. Um dia no ensaio, Dinis Gomes, que era um homem impulsivo e exaltado, pegou-se com o pratilheiro, por este tocar a destempo e dar pancadas em falso. O pratilheiro ficou aborrecido e disse aos companheiros que havia de fazer uma partida ao sr Diniz. E, se bem o pensou, melhor o fez. Numa noitada em Bustos, de grande responsabilidade, em que havia um despique musical com outra banda de renome, na execução duma peça de arromba, em que o mestre punha as maiores esperanças de vitória, o pratilheiro, no final da peça, quando o mestre dava o sinal de terminar e todos acabavam certinhos, deu sozinho uma pancada infernal nos pratos e disse triunfante, em voz alta e bem timbrada:

- Esta vai por minha conta, srº Diniz!

Doutra vez apareceu em Ílhavo um homem do norte, sapateiro de profissão, que afirmava tocar saxofone e que ficaria na filarmónica, se lhe arranjassem trabalho. Um grupo de amantes da música tratou logo do caso com o maior interesse.  Deram-lhe roupa, arranjaram-lhe trabalho, casa e comida. Entregaram-lhe o instrumento e logo se criou entre os amantes da música um interesse extraordinário em ouvir o novo elemento da filarmónica. Marcou-se o primeiro ensaio e nesse dia a sede encheu-se de curiosos para ouvir o artista em foco. Porém, o artista não compareceu, alegando doença. Foram-se marcando novos ensaios, mas o saxofonista não comparecia, alegando variados motivos. Um dia, porém, teve de ser e o homenzinho lá compareceu com o saxofone debaixo do braço ante a expectativa geral. O artista lá começou conforme pode a tocar, mas o saxofone, em vez de soltar sons harmónicos, guinchava estridentemente, com grande pasmo dos assistentes e maestro. Vendo-se aflito, simulou um desmaio e caiu, aparatosamente, no ensaio, pelo que teve de ser levado para casa. No outro dia desapareceu, misteriosamente, e nunca mais dele houve notícias. O afamado artista não sabia uma nota de música e serviu-se do estratagema para arranjar trabalho e auxílios!

Outros maestros que passaram pela Música Velha: Marcos Catarino, Armando da Silva, Guilhermino Ramalheira, João Parada dos Santos, José Vidal, Manuel da Graça, José Venâncio, José Balseiro, João Fonseca, Dionísio Marta, Arnaldo Ribeiro, Fernando Lage e Jorge Domingues (actual).

Alguns nomes que noutros tempos ajudaram a engrandecer esta filarmónica:  José Craveiro, Manuel Craveiro, padre Horácio Bio, padre José Paradela, padre José Guerra, prof. Duarte Pinho, Jaime Catarino, Guilherme Marques, Domingos Ramalheira, capitão Manuel Bela, Américo de Oliveira, Jaime de Oliveira e muitos outros.

Padre José Paradela

 Padre José Paradela Foto do autor

 

A Banda nos seus 125 anos

Já nos nossos tempos a banda foi transferida da Travessa da Filarmónica para a Gafanha da Nazaré, adoptando o nome de Filarmónica Gafanhense. Mas, por ironia do destino, ainda hoje continua a ser conhecida por Música Velha!

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BANDA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE ÍLHAVO-Música Nova (1900)

A 15 de Abril de 1900 foi fundada esta banda que percorreu, pela primeira vez, as ruas de Ílhavo tocando um alegre ordinário. Este primeiro concerto foi feito junto à Associação dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo que tinham a sua sede numa casa pertencente ao capitão Luís Bagão, na esquina da Rua Arcebispo Pereira Bilhano. Resultou de dissidências havidas na Música Velha, originando a saída de alguns dos seus elementos. Um dos grandes entusiastas na formação da banda foi José Cândido Lopes (tocava trompa), irmão do conhecido Prof. António Maria Lopes e que tinha uma sapataria na Rua de Camões. Este grupo foi auxiliado por amigos pessoais com preponderância na corporação dos Bombeiros Voluntários, ficando assim baptizada com o nome de Banda dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, Música Nova.

Música Nova em 1900

O seu primeiro maestro foi Vitorino Mendes Maia que tocava na Banda da Vista Alegre e ali era empregado. Os primeiros ensaios foram feitos no sótão da casa de Samuel Quininha, na Rua Serpa Pinto, passando depois para a Rua de Espinheiro numa casa de Manuel Sacramento. Depois instalaram-se no Pedaço na casa de Manuel Loureiro e de seguida num challet, no Largo do Rossio, pertencente ao cap. Belarmino de Oliveira, junto à antiga loja do srº João Cachim. Mais tarde passam o ensaio para o primeiro andar de uma casa pertencente ao srº Dias Afonso (grande amigo da banda), em frente ao hospital e onde esteve instalada uma sucata. A pedido do proprietário mudam-se para o rés do chão e finalmente instalam-se na  Rua Arcebispo Pereira Bilhano num armazém onde Mestra Chuvas dava doutrina e que o vendera à srª Teresa, proprietária de uma taberna nesta mesma rua. É a actual sede da banda que foi remodelada e inaugurada pela passagem do seu 84º Aniversário e em que esteve presente o então Governador Civil de Aveiro, Dr. Gilberto Madail. Colaboraram a Música Velha, Vaguense, Amizade, S. João de Loure, Escola de Música de Esgueira e da Quinta do Picado.

Demonstrando ser uma banda de valor (na época era apelidada de banda dos fidalgos), logo em 15 de Maio de 1905 tomou parte num Concurso de filarmónicas, no Jardim de Sto. António, em Aveiro , arrancando um honroso 2º lugar entre 10 bandas, com a execução da difícil peça "O Barbeiro de Sevilha". Era maestro Manuel Procópio de Carvalho que tinha assumido o cargo a 5 de Outubro de 1904, vindo da Música Velha. A Banda foi muito felicitada e, quando chegou a Ílhavo, já perto das 2 horas da manhã, executando o Hino da Carta (era o Hino Nacional de então, composto pelo Rei D. Pedro IV), muita gente ainda a esperava, atirando-se foguetes e havendo festa da rija. Percorreu as principais ruas da vila tocando à porta de todos aqueles que mais tinham ajudado a Banda, em especial o seu maestro e Dr. Samuel Maia na altura director do Jornal de Ílhavo.

Em Janeiro de 1912 a Banda ofereceu a António Carlos Fragoso, notário em Ílhavo, um tinteiro em prata, como prova de gratidão à sua constante colaboração como rabequista e cantor nas festas realizadas na Igreja Matriz.

António Carlos Fragoso

António Carlos Fragoso

 Entre os músicos mais antigos destacam-se José Carolla (era contínuo na Escola Nova e filho do grande musicógrafo João Carolla da Música Velha), Carlos Bilelo, António Carlos Fragoso, Sebastião Silva (Grila), Alexandre Bilelo, Manuel Lopes, Júlio de Carvalho, Amândio da Silva, José Azevedo, José Nunes da Cruz, etc.. Os dois primeiros eram os responsáveis por ensinar o solfejo aos jovens de então. Nestes tempos a Música Nova foi um autêntico alfobre de grandes músicos e maestros: José Vidal, Armando da Silva, João Fonseca e muitos outros.

 

Fardamento com Papillon

Alguns nomes que naquele tempo foram indefectíveis da Música Nova: Henrique Cardoso, Luís Cardoso, Carlos Gomes, Manuel Cunha, Manuel Marques de Carvalho, padre Augusto Figueira, Alfredo Novais, José Manuel Rodrigues, José António Paradela, João Reinaldo Ferreira, padre Benjamim Jorge, prof. José Nunes Fonseca, Manuel Nunes Fonseca, padre Sardo, Manuel Sacramento (Vítaro), dr. Samuel Maia, prof. Filipe Figueira que ofereceu uma batuta para a regência, Álvaro Quaresma, Francisco Barreto, Paulo Namorado, padre José Guerra, Palmiro Peixe, Veríssimo Carolla, Francisco Casimiro, Manuel Bela, João Francisco da Rocha, Viriato Teles e muitos outros.

Ainda durante algum tempo tocaram sem farda, sendo esta adquirida por subscrição feita por amigos da banda e inaugurada no início de 1904. O total apurado foi de cem mil réis que deu para a aquisição do fardamento. A 20 de Fevereiro de 1916 estreiam novo fardamento confeccionado por António Martins da Rocha havendo missa conventual e em que a orquestra da Banda, dirigida por Silvério Correia de Melo,  executou de forma primorosa, um belo trecho da Opereta "Belle Risete" de Léo Fall. A bandeira da banda foi adquirida também por subscrição em 1903 e bordada pelas freiras do antigo convento de Jesus de Aveiro. Foi benzida pelo prior Manuel Branco de Lemos e teve como padrinhos o Conselheiro Albano de Melo, de Águeda e Mário Duarte de Aveiro. Nesta altura era porta-bandeira Calixto do Bem Barroca.

Na altura da regência de José Morgado

Alguns dos maestros que passaram pela Banda: Vitorino Mendes Maia, Berardo Pinto Camelo, Manuel Procópio, Joaquim Duarte Douwens, Silvério Correia Melo, José Pedro Soares de Melo, José Redondo, José Morgado, Luís Catão Nunes, José Rafeiro, Benjamim Almeida, João Carlos, Carlos Couras, Artur Pinho, Jacinto Estima e Jorge Ferreira (actual).

José Pedro Soares de Melo, aveirense, deslocava-se de bicicleta para os ensaios (2 por semana), tendo até uma vez sido assaltado nas antigas ladeiras dos lacticínios. Os 1ºs clarinetes, também aveirenses, vinham a pé!

Em 2000 a banda celebrou o seu Centenário com um concerto memorável em que estiveram presentes várias filarmónicas de nomeada.

Resta em S. Salvador a Banda dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, Música Nova, pelo que compete aos Ilhavenses amantes das filarmónicas, prestar-lhe todo o apoio e carinho para o seu contínuo engrandecimento.


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Armindo, António Serrão e José Morgado (Barbeiro) na esquina do mesmo café Fotos de Armindo

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